Pintora e desenhista, Tarsila do Amaral (1886-1973) contribuiu para “inventar” o modernismo brasileiro. É o que diz o título da primeira exposição individual da artista nos Estados Unidos – “Tarsila do Amaral: Inventing Modern Art in Brazil” (Tarsila do Amaral: inventando a arte moderna no Brasil, em tradução livre).

A mostra, focada na produção da artista ao longo dos anos 1920, chega ao MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, em 11 de fevereiro e vai até 3 de junho. Exibe mais de cem trabalhos, levando pinturas, desenhos, cadernos de rascunho da artista e documentos, que já passaram, entre outubro de 2017 e janeiro de 2018, pelo Instituto de Arte de Chicago.

A trajetória da artista

Nascida em Capivari (SP), descendente da aristocracia cafeeira, Tarsila teve aulas de escultura, desenho e pintura em São Paulo. Em 1920, foi dar continuidade à sua formação em Paris e retornou dois meses após a realização da Semana de Arte Moderna de 22, em São Paulo.

Tarsila retornou ao Brasil para “descobrir o modernismo”, segundo a biografia “Tarsila: sua obra e seu tempo”, da crítica Aracy Amaral. Conheceu Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia e fundou, com eles e Anita Malfatti (que já conhecia), o Grupo dos Cinco, núcleo que tomou a frente na defesa da existência de um modernismo brasileiro.

Em contato com o grupo, a pintora “metabolizou” o aprendizado europeu e passou a pintar “com cores mais ousadas e pinceladas mais marcadas”, segundo o verbete sobre a artista na Enciclopédia Itaú Cultural. Em nova viagem a Paris em 1923, voltou a ter aulas, mas com interesse direcionado às técnicas modernas.

Nesse período sua pintura se filia ao cubismo, mas ela já se interessava pelos temas nacionais em pinturas como “A Negra” (1923) e “A Caipirinha” (1923).

Ainda em Paris, iniciou sua fase pau-brasil, em que se dedicou inteiramente à temática nacional. Dela faz parte a famosa obra “Abaporu” (1928). Na década seguinte, influenciada por uma viagem à União Soviética feita em 1933, a obra de Tarsila viveu um novo momento, voltado para temas sociais, no qual pinta “Operários” (1933).

Uma retrospectiva da artista realizada em São Paulo e no Rio de Janeiro, em 1969, contribuiu para consolidar a contribuição de Tarsila, ainda viva, para a arte brasileira. “Tarsila: 50 Anos de Pintura” foi organizada pela crítica e biógrafa Aracy Amaral, e apresentada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo.

“No começo da década de 1960 foi quando começou a valorização dos modernistas, e isso impulsionado pelos leilões em prol do Hospital [Albert] Einstein. Havia leilões para a construção desse hospital no Museu de Arte de São Paulo. Compareciam críticos de arte, que diziam umas palavrinhas sobre o artista, e aí se leiloava. Foi quando se começou a vender Ismael Nery, Di Cavalcanti, Tarsila, Anita… Até então a maioria das obras estava na casa dos artistas porque a grande estrela era o Portinari, era o homem dos painéis, dos murais, o artista oficial do governo Vargas. Então, fiquei com a ideia de fazer um trabalho sobre Tarsila” – Aracy Amaral Crítica de arte.

As mulheres modernistas

Obras da artista, como “A Negra” e “Morro da Favela”, foram capazes de resumir as pretensões do movimento modernista brasileiro ao atualizar as formas e linguagens por meio da figuração de uma temática nacional, segundo a professora da USP e pesquisadora de arte e gênero Ana Paula Simioni. “Vários autores apontam que, sobretudo nos anos 1920, Tarsila conseguiu sintetizar com algumas obras a plataforma de uma geração, isso é muito impressionante”, disse.

Segundo Simioni, mulheres participaram, em equilíbrio com a presença masculina, dos modernismos de diversos países no século 20. Na vanguarda russa, essa igualdade figurou de maneira mais radical, comparável somente, para a professora, ao status de Tarsila e Anita no modernismo brasileiro, consideradas líderes por seus pares, como Mário de Andrade. Modernistas mexicanas, como Frida Kahlo e Maria Izquierdo, só passaram a ser reconhecidas a partir da segunda metade do século 20.

Em entrevista ao Nexo, a pesquisadora criticou o excesso de foco sobre a produção dos anos 1920 de Tarsila, presente, inclusive, na exposição do MoMA. Para ela, há poucas chances de ver o conjunto da obra da artista; faltam pesquisas e exposições que tratem de outros períodos de sua produção.

“Nos anos 1950, Tarsila e Anita estão completamente à margem das bienais [de arte]. Tarsila pintou, escreveu e ilustrou todo o tempo. Isso é um problema, a historiografia só olha para a Tarsila dos anos 1920. O que ela fez nos anos 1930, 40 e 50 é muito pouco estudado.”

Fonte: Nexo