Apartir do dia 8 de outubro, o Instituto de Arte de Chicago recebe a exposição Tarsila do Amaral: Inventando a Arte Brasileira. Em cartaz até janeiro de 2018, a mostra contará com mais de 120 telas, desenhos e documentos da modernista. Na sequência, o trabalho da pintora ganha as salas do MoMA, um dos mais importantes templos da arte moderna, em Nova York. A exibição acontece de 11 de fevereiro a 3 de junho.

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Cartaz da mostra de Chicago (Foto: Divulgação)

O cinema também se prepara para tornar ainda mais célebre a vida da maior pintora brasileira, morta em 1973, aos 86 anos. Uma produção entre Brasil e Inglaterra – ainda sem título, com estreia prevista para maio de 2019 – começa a ser rodada no início do ano que vem. “O inglês Simon Egan, o mesmo de O Discurso do Rei, filme vencedor de quatro Oscars, é o produtor-executivo do longa”, diz Claudio Kahns, coprodutor do filme. A francesa Marion Cotillard é o nome mais cotado para o papel principal. Um dos motivos, de acordo com Tarsila do Amaral, 52 anos, sobrinha-neta homônima da artista, é que a pintora foi alfabetizada em francês. “Meu bisavô contratou uma professora belga para isso.”

Nascida em Capivari, interior de São Paulo, numa família aristocrática de barões do café, Tarsila esquivou-se da inevitável sina das mulheres do início do século 20: viver submissa ao marido e ocupar-se dos afazeres domésticos. Mesmo tendo casado e se tornado mãe antes dos 20 anos, ainda em sua terra natal, conseguiu anular a união com o médico André Teixeira Pinto ao descobrir que ele a traía com uma cunhada. Com o fim do relacionamento (e apoio incondicional do pai), fez as malas e partiu para Paris com a filha. Matriculou a menina num colégio interno e entrou para a Académie Julian, escola de arte onde até então mulheres não eram admitidas porque se deparariam com modelos nus.

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Tarsila nos anos 20 (Foto: Arquivo Pessoal)

Pioneirismo absoluto

De volta ao Brasil em 1922, conheceu o segundo e mais marcante de seus três maridos: o poeta modernista Oswald de Andrade. Considerado um mulherengo incorrigível – e o último na lista dos candidatos a um casamento de sucesso –, Oswald fez de Tarsila uma nova mulher. Juntos, mudaram para Paris (em 1923) e viveram intensamente os Anos Loucos, época de grande efervescência cultural. “Minha tia alugou um ateliê em Montmartre, que foi de Paul Cézanne, e ficou muito próxima de Blaise Cendrars [o mais importante poeta francês do período]. Ele a apresentou a Deus e o mundo. De Stravinsky a Pablo Picasso, de Jean Cocteau a Constantin Brâncusi”, conta a sobrinha.

Tanto o longa quanto as exposições se concentram exatamente nesse período e ressaltam o papel fundamental dela na Antropofagia, movimento protagonizado por Oswald que promoveu a ideia de devorar, digerir e transformar as influências artísticas europeias para conceber um novo mote para a arte brasileira. Sobre a participação dela na corrente, a sobrinha destaca a criação de A Negra, de 1923, em que Tarsila pintou uma escrava de traços cubistas. “A amizade com o pintor Fernand Léger foi fundamental na trajetória dela. No ateliê dele, ela pintou esse quadro, em que a mulher obrigada a trabalhar duro na roça aparece com os seios deformados pela amamentação”, diz a herdeira. Na época, a obra chocou a sociedade brasileira, que ainda respirava ares escravocratas e estava acostumada à pintura clássica. A Europa, por sua vez, ovacionou o trabalho de Tarsila.

Uma mulher apaixonante

Autora da tela brasileira mais cara de todos os tempos, Abaporu, leiloada por US$ 2,5 milhões em 1995 e hoje em exposição no Malba, em Buenos Aires, Tarsila era altamente sedutora. Tinha pele morena, vivia de batom vermelho e gostava de moda como poucas. Vestia-se com o colorido de Paul Poiret, o maior estilista do período, famoso pelas peças soltas e drapeadas, e usava joias art déco. Ainda tinha a seu lado Oswald, um homem capaz de usar smoking roxo com gravata-borboleta amarela.

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A artista em mostra de 1926 (Foto: Arquivo Pessoal)

A sobrinha, que conviveu com ela na infância, conta que a vaidade acompanhou a tia até o fim. Mesmo debilitada – ficou paralítica após uma cirurgia malsucedida na coluna, em 1965 –, só recebia visitas fora do quarto onde trabalhava, sempre vestida impecavelmente. “Ela nunca deixou que ninguém a visse pintando”, conta Tarsila. A filha, Dulce, morreu de diabetes em 1966. A artista morreu sete anos depois, em janeiro de 1973.

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Sobrinha-neta homônima (Foto: Julia Rodrigues)

Este ano, a pintora serviu de inspiração para a coleção de 2018 da Osklen, desfilada na última SPFW. “Ela foi nossa Coco Chanel, uma mulher à frente de seu tempo”, afirma Oskar Metsavah, estilista e fundador da marca. “Em sua época, existia um movimento, parecido com o atual, de colocar o Brasil no mundo”, completa. Algo que poucos fizeram tão bem quanto Tarsila.

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Imagens do desfile da Osklen (Foto: Thibé, Francisco Cepeda)

Fonte: Marie Claire