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Os “Operários” de hoje se mesclam nas possibilidades do mundo conectado, mas como desenvolver uma educação pública universal, laica e libertaria para todos?

Este ano a pintora Tarsila do Amaral teve sua primeira exposição individual relevante nos Estados Unidos, mais precisamente no Moma (Museu de Arte Moderna) de Nova York. Ao mesmo tempo, a educação no Brasil parece enfrentar um novo capítulo da saga “Operários “– que a modernista pintou em 1933. A obra inaugurou uma pequena fase na vida da pintora onde a questão da identidade nacional se mescla à explícita preocupação social – fruto do Crash de 1929 que afetou diretamente sua vida.

Se olharmos de longe, enxergamos na tela de “Operários” uma pirâmide de cabeças frente a uma chaminé e um cenário de urbanização. A migração de todos os tipos, raças, cores aos centros urbanos davam a cara de um novo Brasil – industrializado e liberal. Mas quem seriam eles? Uma massa humana. Diferentemente, entretanto, se olharmos de perto (a tela original tem 150 x 205 cm): é possível notar que cada um dos 51 rostos é único e representativo. Segundos especialistas, é possível inclusive reconhecer faces como a do arquiteto Gregori Warchavchik e da cantora Elsie Houston.

Como consequência desse cenário econômico e social, foi justamente nos anos de 1930 que a escola pública como a conhecemos começa a ser forjada no Brasil. O movimento da Escola Nova traz ingredientes libertários e universais que arrastamos até hoje – John Dewey havia sido mestre de Anísio Teixeira nos Estados Unidos na década anterior. Surge o Ministério da Educação e Saúde, impulsionado pela Era Vargas. O Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou em 1932 o primeiro Plano Nacional de Educação – privilegiando a sistematização dos conhecimentos, o currículo propedêutico e tecnicista que lutamos para flexibilizar hoje.

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Releitura de “Operários”, obra de Tarsila Amaral, feita por alunos da Escola Santi, de São Paulo – Crédito: Arquivo Pessoal

Novamente, contemplando “Operários” a distância, ficamos com a pergunta: Como desenvolver uma educação universal, laica e libertaria para todos os brasileiros? Mais de 80 anos depois, perseguimos esse ideal. Expandimos a rede, perdemos qualidade e corremos atrás da contemporaneidade – para que as escolas respirem o espírito de nosso tempo.

O olhar cirúrgico, em cada rosto evoca: Como cada um pode aprender da sua maneira? Como as chamadas “limitações” da aprendizagem de alguns podem ocultar habilidades não exploradas, talentos inatos? A tecnologia tem ajudado educadores a traçar caminhos individualizados da educação.

Nesse sentido, os “Operários”, hoje se mesclam e se reinventam nas possibilidades de um mundo conectado e com a presença da inteligência artificial. Qual é o mercado de trabalho hoje? O Fórum Econômico Mundial já apresentou diversas pesquisas apontando a extinção e o surgimento de carreiras para os alunos que estão hoje na escola.

Nesse caso, me parece que a digestão antropofágica de Tarsila e Oswald, por essência, deve ser eternamente relida – inclusive dentro da escola. Uma educação contemporânea, conectada com crianças e jovens, precisa “comer” e “digerir” o que há em nossa volta, como um novo e complexo Abaporu.

Texto: Alexandre Le Voci Sayad
Fonte: porvir.org
Foto: Divulgação