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Tarsila do Amaral: Inventing Modern Art in Brazil/de 11/2 a 3/6/ Museum of Modern Art (MoMA), NY

Em 1928, Tarsila do Amaral (1886-1973) presenteou o marido Oswald de Andrade com a enigmática pintura de uma mulher, de torso alongado e pés monumentais. A tela foi nomeada por Oswald e pelo poeta Raul Bopp de “Abaporu”, homem que come gente, em tupi-guarani. Ela veio em boa hora representar os humores da vanguarda moderna brasileira, fervilhantes desde a Semana de 1922, ávida em se organizar em forma de movimento. Em torno do presente de aniversário de Oswald de Andrade, organizou-se o movimento Antropofágico, proposto a deglutir a arte e a cultura europeia, e devolvê-la ao mundo em cores mais ousadas e pinceladas mais marcadas. A partir de 11 de fevereiro, quando o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA-NY) recebe do Art Institute de Chicago a primeira exposição monográfica de Tarsila do Amaral nos EUA, o mundo poderá finalmente digerir a antropofagia brasileira.

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O “Abaporu” é a nossa “Mona Lisa”. Além de simbolizar um dos mais importantes movimentos culturais que aqui brotou e reverberou, representa também nossa lamentável realidade: o desprezo e a displicência do brasileiro por seu patrimônio cultural. A obra pertenceu ao empresário brasileiro Raul Forbes nos anos 1980, adquirida por R$ 250 mil. Em 1995, quando foi a leilão internacional, não comoveu nossos empresários e colecionadores e acabou arrematada pelo argentino Eduardo Costantini, por uma bagatela de US$ 1,3 mi. Desde que tornou-se a grande estrela da coleção do Malba (Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires), o Abaporu teria valorizado cerca de 2000%. Especialistas afirmam que é impossível precisar o valor de uma obra icônica como essa. Diversas tentativas de resgate e repatriamento foram feitas, em vão. O empresário argentino já avisou que a obra não está à venda, dizendo que o “Abaporu” está para o Malba assim como a “Mona Lisa” para Louvre: de lá ele não sai. Imagine o que pode acontecer com os preços de mercado da dama do modernismo brasileiro depois de ela fazer a América.

Com curadoria de Luis Pérez-Oramas, do MoMA e da 30ª Bienal de São Paulo, e de Stephane D’Alessandro, do Art Institute of Chicago, a exposição reúne cerca de 120 obras selecionadas de coleções da América Latina, Europa e EUA. Inclui desde os primeiros trabalhos realizados em Paris, onde foi aluna de André Lhote, Fernand Léger e Albert Gleizes, até obras de cunho social e surrealista dos anos 1930, passando pelo momento ápice da antropofagia, com as telas “A Negra” (1923), “Antropofagia” (1928) e o “Abaporu”.

O título da mostra, “Tarsila do Amaral: Inventing Modern Art in Brazil”, anuncia a pintora como pioneira — ainda que tenha sido Anita Malfatti quem sofreu o impacto da crítica conservadora de Monteiro Lobato quando demoliu paradigmas e convicções ao pintar “O Homem Amarelo” (1913). “Malfatti é uma grande desenhista, talvez a maior do primeiro Modernismo brasileiro, ao lado de Cícero Dias, e uma grande pintora. Está para ser descoberta por audiências fora do Brasil”, diz o curador Luis Pérez-Oramas a ISTOÉ. “Tarsila do Amaral é uma grande pintora e uma extraordinária desenhista, mas também uma figura emblemática. O fato de ela ter inventado o imaginário iconográfico da antropofagia, as suas ilustrações para livros de Oswald de Andrade e Blaise Cendrars, e as suas constantes pontes entre Europa e Brasil, fazem de Tarsila uma figura urgente de ser mostrada nos EUA hoje”, justifica Pérez-Oramas.

Da fase surrealista, a mostra traz a intrigante “Composição (Figura só)”, de 1930, e um estudo homônimo, em papel, bastante significativo, já que se trata da primeira obra de Tarsila a entrar para a coleção do MoMA. Mas não se trata de uma aquisição: foi doada em 2017. “Pelo que eu soube, é uma doação casual e, por sorte, indicativa de uma fase máxima da artista, a antropofágica, surreal, sonhadora”, diz a crítica de arte Aracy Amaral à ISTOÉ. “Faço votos de que inspire o Museu em questão a alguma aquisição da artista, alguma obra significativa da sua marcante trajetória nesse final dos anos 1920”, completa a maior especialista em Tarsila do Amaral no Brasil, autora de “Tarsila — Sua Obra e Seu Tempo” (1975).

A partir da indagação de Aracy Amaral, Pérez-Oramas anuncia que o MoMA — antes e independentemente da exposição — tem buscado uma obra de Tarsila do período 1928-1930, em pintura e/ou desenho, para aquisição. O curador espera que a ocasião para tal seja agora, com a esperada repercussão da mostra em Nova York.

Fonte: IstoÉ
Texto: Paula Alzugaray