Na obra inédita, sobrinha-neta de Tarsila do Amaral defende que obra surgiu de um autorretrato.

“Num dia, estava Tarsila sentada no chão, pensando. Talvez, nua – já que fazia muito calor. Ou com alguma roupa colada ao corpo. Provavelmente, como de hábito, usava os cabelos presos. Devia estar com a mão apoiada na cabeça, as pernas juntas, os pés descalços.

Diante dela, havia um grande espelho. Por acaso. O espelho ficava apoiado, de forma inclinada, numa parede – sobrinha da pintora, Helena do Amaral Galvão Bueno diz se lembrar perfeitamente da casa na Rua Barão de Piracicaba; segundo ela, junto ao quarto-ateliê de Tarsila havia um corredor e, nele, um grande espelho, assim, posto no chão, apenas encostado na parede.

O reflexo, distorcido por conta da posição inclinada do espelho, mexeu com a imaginação da artista. Foi um estalo. Ela sabia perceber a poesia nos detalhes, tinha esse faro artístico aguçado de quem não enxerga o óbvio nas coisas, mas vai além. Tarsila viu na cena uma oportunidade de criação.

No espelho, a cabeça da artista aparecia bem pequena. O pé, gigante. Seus olhos de pintora se encantaram com aquela visão inusitada, diferente e, por isso mesmo, interessante.

Tarsila deve ter gastado muito tempo se observando. Horas, talvez. O pé imenso… A cabeça, minúscula… A boca e os olhos quase sumindo, a mão caída ao lado do pé grande… Que figura diferente!

Aquela imagem lhe parecia provocativa, ousada, perfeita, bem-humorada. Ficou gravada em sua retina, grudada em seu pensamento. Tornou-se uma insistente obsessão.”

Fonte: Portal O Estado de São Paulo